Um blog de Moda e História

quarta-feira, 26 de março de 2014

O Xadrez está de volta: estilo grunge como inspiração da semana de Nova York



Vocês devem ter visto por aí que as coleções outono/inverno das lojas de departamento vieram com tudo na onda nova yorkina com pegadas urbanas dos anos 70/80 e tendências do rock. O xadrez também voltou às coleções e o Pretty-à- Porter decidiu lembrar um pouco de uma época que ele foi marca bastante registrada.




A moda, como sabemos, pode estar muito associada à música. O Grunge foi um estilo saído do rock alternativo e surgiu no final da década de 1980. A aparência desleixada e as roupas de flanela rapidamente caíram na graça do público. A moda, que talvez não tenha surgido exatamente como uma moda, mas uma anti-moda também tinha como característica marcante os cabelos bagunçados e sem pentear. A forma da vestimenta não era apenas uma maneira de vestir pura e simplesmente, mas uma crítica radical às bandas que almejavam apenas o sucesso. Bem, o sucesso advindo disso pode ser entendido como paradoxos do mundo da música, e da moda.
O clipe abaixo, do Sonic Youth traz ninguém menos que Marc Jacobs...



O que se costuma ouvir por aí é que "xadrez nunca sai de moda". Mas agora "a coisa ficou séria", na semana de moda de Nova York o grunge recebeu destaque novamente, Richard  Chai e Nicolas K trouxeram para as passarelas inspirações do estilo, com sobreposições e muito xadrez. 



Atualmente na pegada mais urbana o xadrez é combinado ao jeans rasgado ou peças de couro. As botas também são presença sempre garantida no inverno e o tênis também é sempre bem vindo. Camisas amarradas na cintura também são marca do estilo.






Fotos: Matheus Borges

sábado, 8 de março de 2014

As Horas, Virginia Woolf e o Dia Internacional da Mulher





Três mulheres em três épocas diferentes, todas estão ligadas. O filme As Horas (2003) que rendeu o Oscar de Melhor Atriz para Nicole Kidman tem direção de Stephen Daldry (diretor de O Leitor - 2008). O longa é baseado no livro de mesmo nome de Michael Cunningham (1999)  e conta a história da escritora Virginia Woolf (interpretada no filme por Nicole Kidman), na década de 1920, a dona de casa Laura Brown (Julianne Moore), em 1950, e a editora Clarrisa Vaughn (Meryl Streep), no início do século XXI. As personagens estão ligadas por um livro Mrs Dalloway, de Virginia Woolf, enquanto Woolf escreve, Laura Brown lê o livro na década de cinquenta e Clarissa Vaughn é a Clarissa moderna.
O livro escrito por Virginia Woolf, Mrs. Dalloway (1925), de narrativa aparentemente simples, conta a “história do dia de uma mulher”, Clarissa Dalloway, e inicia com uma frase emblemática: “A Sra. Dalloway disse que ela mesma iria comprar as flores.” É a partir disso que o leitor é levado a um novo mundo, engendrado em uma narrativa até então não vista na literatura feminina. Mrs. Dalloway já era um personagem criada por Woolf em A Viagem (The Voyage Out), primeiro romance de Woolf escrito em 1915. Colocada ao lado de Proust e Mann, Virginia Woolf é uma das mais importantes escritoras do século XX, introduzindo na literatura o chamado fluxo de consciência, no qual se desenvolve no texto o pensamento das personagens interligados aos acontecimentos e às demais descrições.
O filme de Daldry possui uma interessante sacada, após a cena do suicídio de Virginia Woolf – cena que inicia e encerra o filme - em que são citadas trechos de sua carta deixada a Leonard Woolf, somos apresentadas às três personagens em diversas cenas mostrando bem a delimitação do tempo. Em certo momento, Virginia Woolf em seu escritório, na casa no campo que foi obrigada a ficar por recomendações médicas, escreve a frase no livro Mrs. Dalloway, na cena seguinte Laura a lê nos anos cinquenta, e na outra Clarrisa Dalloway diz à sua companheira Sally: “Sally, eu mesma vou comprar as flores”. No livro esse tipo de composição é mais difícil e a narrativa é feita dividida em partes que levam o subtítulo relacionado à personagem da qual irá se falar.
A historiadora Priscila Piazzentini Viera, com doutorado em história pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) possui um importante texto intitulado “O Filme As Horas e os diferentes modos de produção de subjetividade feminina: da sociedade disciplinar à sociedade de controle”, fruto de trabalho apresentado no XXVI Simpósio Nacional de História, o trabalho está disponível on-line pelos anais do evento e quem quiser conferir é só pegar a referência completa no fim da postagem. O texto a partir do filme As Horas procura entender as diferentes formas de subjetivação moderna “a partir da crise de uma das instituições mais significativas para a sociedade disciplinar, a família, procura entender como a produção da subjetividade feminina se modificou”.
O filme aqui pode fugir um pouco do tema central do blog que é a moda, mas poderia ser facilmente colocado na temática pois é claramente visível a diferença de figurino referente às diferentes épocas abordadas no filme. Todavia, aqui na universidade é fim de semestre e não estou com muito tempo para uma discussão mais aprofundada para a postagem do blog hoje, já que tenho diversas provas e trabalhos para entregar na semana que vem. Apenas estou aqui e trouxe a referencia ao filme porque hoje é Dia Internacional da Mulher, e a forma que escolhi para falar desse dia foi trazendo à tona um dos meus filmes preferidos e a minha autora preferida.


 Nicole Kidman interpretando Virginia Woolf.



Meryl Streep como Clarissa


Virginia Woolf foi uma escritora nascida em Londres em 1882 e publicou importantes e conhecidos romances, contos e ensaios, como Mrs. Dalloway, 1925, e Rumo ao farol (To the Lighthouse), 1927. Um teto todo seu (A room of one’s own), publicado em 1929, foi baseado em dois artigos lidos pela escritora na Sociedade das Artes em Newman, e na Odtaa -  sigla para Damned Thing After Another-, em 1928, convidada a dissertar sobre As mulheres e a Ficção.  Embora não tenha recebido educação formal, a autora além de romancista escreveu diversos livros de crítica literária e biografias. Um teto todo seu é um dos livros mais citados relacionados aos estudos feministas, Harold Bloom porém identifica o feminismo de Virginia Woolf como um feminismo diferente ligado ao amor à leitura e pela revolução no próprio estilo de escrita feminina. É em 'Um teto todo seu' que consta a famosa frase “As mulheres precisam de dinheiro e um quarto próprio se quiserem mesmo escrever ficção.” Harold Bloom assinala:
“Seu feminismo (para chamá-lo assim) é poderoso e permanente, precisamente por ser menos uma ideia ou compósito de ideias e mais um formidável apanhado de percepções e sensações.” (BLOOM, 2001: 417)
Blanchot em O livro por vir também traz um ensaio interessante sobre Woolf, sob o título O malogro do demônio: a vocação.
Outro livro escrito pela autora é Orlando o maior romance temporal de Woolf, a personagem vive cerca de 350 anos, e que representa uma subversão tanto temporal quanto masculino/feminina, porque Orlando, personagem principal, torna-se uma mulher. O livro que já foi traduzido e elogiado por Jorge Luis Borges é o sexto da autora. Mais que uma defesa da mente andrógina, que ela também falará em Um teto todo seu, o livro que é uma biografia tem uma intensa relação dos indivíduos com o fluxo da história.
Infelizmente Virginia Woolf, uma das mentes mais brilhantes do século passado, não resistiu às inúmeras crises de depressão e a pressão sofrida em virtude da guerra e suicidou-se no rio Ouse em 1941. Todavia, sua obra pode ser lida e relida e é uma das mais importantes do século passado.

Bem, desejo à todas as Mulheres um Feliz Dia Internacional das Mulheres (no plural). Que tod@s possamos lutar por um mundo menos sexista.
Beijos, Suelen Caldas.



Virginia Woolf

Minha coleção Virginia Woolf (que ainda aceita presentes)

Edição Nova da Autêntica com Diário.
Virginia Woolf, Contos Completos
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look do dia.













Trechos de alguns livros de Woolf

"Mas quando o eu fala com o eu, quem é que fala? - a alma sepulta, o espírito empurrado para dentro, cada vez mais para dentro da catacumba central; o eu que tomou véus e abandonou o mundo - um covarde talvez, contudo belo de algum modo, quando em seu desassossego perpassa de lampião na mão, a subir e descer nos corredores escuros. 'Não consigo mais suportar isso', diz o espírito dela'."
WOOLF, Virginia. Um romance não escrito. In: Contos Completos. São Paulo: Cosac Naify, 2005. p. 159

"O estranho, quando recordava era a pureza, a integridade de seus sentimentos para com Sally. Não era como o que se sente por um homem. Era completamente desinteressado, e, de resto, tinha uma qualidade que só pode existir entre mulheres, entre mulheres recém-saídas da adolescência. Era um sentimento protetor por sua parte;provinha da impressão de estarem coligadas, o pressentimento de que alguma coisa fatalmente as separaria... Mas o seu encanto era irresistível, pelo menos pra ela, tanto que se revia parada em seu quarto do alto da casa, com o jarro de água quente nas mãos e dizendo em voz alta: ‘Ela está debaixo desse mesmo teto... ela está debaixo desse mesmo teto.’

Não, essas palavras agora não significavam exatamente nada para ela. Nem sequer lhe despertavam um eco da antiga emoção.  Mas poderia recordar ainda que sentira um arrepio de excitação e que começara a pentear os cabelos num espécie de êxtase ( e agora lhe vinha voltando os velhos sentimentos enquanto retirava os grampos, colocava-os no toucador e começava  a pentear-se), enquanto as gralhas se alçavam e abatiam então, na luz rosada co crepúsculo, e ela se vestira e descera as escadas, sentindo, ao cruzar o vestíbulo: ‘Se tivesse de morrer agora, nunca teria sido mais feliz.’ Esse o sentimento – o sentimento de Otelo, e sentia-o, estava certa, tão fortemente como Shakespeare pretendia que Otelo o sentisse, tudo porque baixava, vestida de branco, para jantar com Sally Seton!” Mrs. Dalloway, p. 36-37.
"Meio adormecidos e murmurando palavras fragmentadas, pararam no ângulo feito pela proa do barco, que deslizava rio abaixo. Um sino tocou na ponte de comando e ouviram o chapinhar da água que se afastava em ondinhas dos dois lados; um pássaro assustado no sono grasnou, voou para a árvore mais próxima, e tudo ficou calado de novo. A escuridão derramava-se profusamente e os deixava quase sem sentimento de vida, a não ser por estarem parados ali, juntos, na escuridão." Virginia Woolf. A Viagem, tradução de Lya Luft, Novo Século, p. 429/430
“(Pois, embora não devamos interromper em nenhum momento a narrativa, temos que anotar aqui, às pressas, que todas as suas imagens naquela época eram extremamente simples, para combinarem com seus sentidos, e eram, em sua maioria, extraídas de coisas que tinha gostado em pequeno. Mas, se os sentidos eram simples, eram, ao mesmo tempo, extremamente fortes. Parar e procurar a razão das coisas era impossível.)” Orlando, p.29



Referências:


BLANCHOT, Maurice. O livro por vir. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
BLOOM, Harold. O cânone ocidental: os livros e a escola do tempo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
BORGES, Jorge Luis.  Sobre a filosofia e outros diálogos. São Paulo: Hedra, 2009.
MARDER, Herbert. A medida da vida. São Paulo: Cosac Naify, 2011.
VIEIRA, P. P. . O filme As Horas e os diferentes modos de produção da subjetividade feminina: da sociedade disciplinar à sociedade de controle. In: XXVI Simpósio Nacional de História. ANPUH: 50 anos, 2011, São Paulo. Anais do XXVI Simpósio Nacional da ANPUH - Associação Nacional de História. São Paulo: ANPUH - SP, 2011. p. 01-12.
WOOLF, Virginia. A Viagem. Tradução: Lya Luft, São Paulo: Novo  Século Editora, 2008.
______. Contos completos. São Paulo: Cosac Naify, 2005.
______. Mrs, Dalloway. Tradução de Mário Quintana. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003.
______. Orlando. Saraiva de Bolso, 2011.
______. Um teto todo seu. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2004.

desenho feito por mim no ano passado, cena do trem de As Horas.